"Os limites da minha linguagem são os limites do meu mundo(...) Aquilo que não podemos pensar, não podemos pensar; também não podemos dizer aquilo que não podemos pensar." Ludwig Wittgenstein in Tractatus, aforismos 5.6 e 5.61
Sábado, Janeiro 17, 2004
Dias
O dia de hoje, digamos, não me correu de feição ... E isso levou-me a pensar na natureza humana e em algo que lhe está inerente: o espírito sádico e predador de alguns indivíduos que, normalmente, se apropriaram de modo suspeito de uma parcela de poder e que o usam de modo impune sobre outros. Neste esquema clássico de vigia e punição tais indivíduos recorrem a todos os meios para exercer essa coacção sobre o livre arbítrio, não permitindo o salutar espaço da crítica, ou mesmo a presença consciente de um Outro.
Esta faculdade humana de "pensar" é algo que, a custo e com avanços e recuos vamos construindo ao longo do tempo num percurso sempre acidentado e que facilmente ameaça recolher perante o cansaço, a frustação ou o desânimo dos nossos dias que, contra vontade, se vão assemelhando uns aos outros.
Uma doença moderna: a produtividade. Mas porque razão se tenta, por todos os meios, reduzir o indivíduo a algo maquinal, retorcido e distante da sua natureza? Porque razão estes tempos modernos nos obrigam a sentar durante oito horas frente a uma workstation que, não obstante nossos herculeanos esforços, insiste no shutdown indevido ou em caixas de diálogo azul repletas de mensagens incompreensíveis para todos aqueles que não tiveram formação cibernética desde os 2 anos de idade?
Saudades da praia, do sol, de estar longe daqui, do frio e chuva do Sul, das férias q não tive e das que irei ter, dos meus amores perdidos e daqueles que certamente irei encontrar.
Voltei!
Voltei. Para surpresa de todos aqueles que anunciavam já a morte prematura deste blog, assim como do espírito criativo do seu autor, figura ameaçadoramente e inusitadamente incontornável no panaroma criativo português, resta-me apenas dizer ... Bah ... Nada mais que Bah agora neste espaço de opinião que, na medida em que me for possível irá sendo permanentemente actualizado.
Domingo, Dezembro 21, 2003
É quase Natal!
Nesta dias que antecedem o Natal, importa repensar o significado da data. Segundo a tradição cristã, Natal é época de reunião, de congregação familiar, de retorno aos valores ditos moralmente justos, de Paz.
"Paz entre os homens" é um daqueles ditos, slogans de fácil enunciação mas de difícil concretização. Num tom que tentemos pouco episcocal, repensemos o significado do termo ou a acepção em que vulgarmente o tomamos.
"Família" é, num sentido restricto e redutor, "o conjunto das pessoas que partilham o mesmo agregado familiar". É uma visão que excluí ou ostracisa as relações que temos com outras pessoas que se situam fora do nosso seio familiar, ou que pertencendo à nossa família, não compartilham conosco o mesmo tecto e mesa.
Ainda que indúbitavelmente festiva e simbólica, a congregação familiar revela-se puramente figurativa a não existir partilha de ideias, sentimentos, afectos e vontades.
Para lá da teatralidade e fausto da quadra, importa indagar das verdadeiras intenções dos seus protagonistas.
Que a família de cada um importe mais que as quezílias que marcam os seus dias e dividem as suas vontades. Que a sua união seja defendida, a sua coesão reforçada. Para lá do perú e do bacalhau, estes são os meus votos. Um Bom Natal a todos.
Quinta-feira, Dezembro 18, 2003
Miss you
É noite. A máquina lava tardiamente algumas peças – qualquer dia chamam a polícia. É noite e penso nalgumas coisas.
Preocupações e aborrecimentos assolam-me. Sempre me assolaram. Os fantasmas. O espírito festivo da quadra afigurase-me distante, como algo próprio a parolos e famílias de subúrbios, com a sua árvore de Natal, presépios e vaquinhas e presentes em peúgas.
É noite, a televisão trabalha para o boneco e eu sinto-me um pouco triste.
Talvez as coisas se componham, talvez não.
Entre estes aborrecimentos, volto a pensar nela. Talvez se estivesse aqui, agora, tudo se compusesse e o meu Natal fosse um pouco mais feliz. Tenho saudades. Apesar de não atender o tlm, ainda que me odeie e eu não saiba muito bem porquê.
Gostei tanto dela, tanto.
Vai para meio ano e continuo obsecado - alguns flashs vêm à minha mente, ainda que não me confortem do abandono que sinto. Apetece-me chorar. Às vezes apetece-me morrer.
Nervos tomam-me o caminho das mãos que teclam um pouco ao abandono sentimentos tristes, de desolação e dor.
Tenho saudades dela.
Como nunca tive saudades de ninguém.
Por vezes sinto que conheci o paraíso e que perdi o mapa para lá chegar. Não entendo como alguém que dizia gostar de mim …
É noite e sentimentos contraditórios assolam o meu espírito.
Gostava de poder gritar o teu nome na rua A.
Porquê?
Porquê?!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
Terça-feira, Dezembro 16, 2003
Texto pop
Esta tarde, em conversa com uma colega de trabalho, eis que compreendi uma verdade universal: os homens são radicalmente diferentes das mulheres! E eis que, perante esta proposição universal afirmativa, o leitor expectante e salivante, que procuraria decerto nestas linhas, uma nova hermenêutica (ou hermenêutica nova, como dizia um professor meu) dos textos de São Tomás de Aquino, espantado com tamanha banalidade e tão grande falta de tacto, questiona ... " E ..."? É certo que este facto não é novo e que, ao longo de milénios se tem constatado quão verosímil é esta afirmação, todavia, questionemos nós também (sem qualquer pretensão absolutista ou de cientifícidade académica) quais são afinal, os aspectos em que, de modo mais flagrante, os dois sexos se desentendem.
Conhecemos de cor a típica afirmação feminina "Ele só quer é dar umas pinocadas e toca a andar!" Pelo menos, eu já a ouvi da boca de alguém, ou penso ter ouvi-la, isto antes de começar a espumar da boca... Ora, isto não é inteiramente verdade e irei então, neste pequeno apontamento nocturno, demonstrá-lo.
Nós, os "machos" (ou "machinhos") somos, sem sombra de dúvida uma espécie fragilizada nesta que é, a primeira década do século XXI. É próprio "do homem" afirmar a sua virilidade do modo mais primitivo que encontrar. Frases como "Oiçam todos, vou-me cagar!" ditas num certo contexto e para um determinado público, granjeiam popularidade ao jovem sedutor. Equivalem a um doutoramento em Friedrich Nietzsche ou Gilles Deleuze (naturalmente, no âmbito das filosofias comparadas (Delleuze/Bacon)... Mas não basta para encantar. Ainda que um bom começo, é redutor e não-suficiente.
O D. Juan da Reboleira, não veste qualquer coisa. Só saldos das famosas lojas do grupo Inditex, naturalmente com acessórios da casa refira-se a tão famosa corrente das chaves, Útil para ... um acessório marcadamente viril, digamos!
Em tempos idos, os folículos capilares que, ao longo dos anos iam prosperando no corpo masculino eram um sinal de virilidade_ hoje, experimentem dizer algo como "Ena, sabes Sara, andam a crescer-me mais cabelos nas costas!" para verem como a jovem moçoila arranja rapidamente uma desculpa para tomar o autocarro que passa a Venda do Pinheiro aflita para visitar uma tia que participa na Operação Triunfo mas que, oh infortúnio, partiu os dois bracinhos!!!
A juntar à pressão social criada em torno da imagem quotidiana do homem urbano, junta-se entre outros factores, aquele que, quiçá, irá determinar a integração social do jovem macho: o carro usado! E eis que é vê-los a amolgar chapa nas noites de sábado no Fiat 127 , (naturalmente na estação de serviço de Alcochete) ou a contrair um crédito a 10 anos para comprar umas luzes de natal para colocar debaixo do invejável veículo - decerto lembranças de tempos idos, de viagens em família à Feira Popular! E para quê? Para as gajas! Andam estes tansos a dar o litro e a gastar o dinheiro da Tutela (ou Select, Randstad ou outra qualquer "agência temporária" - expressão peculiar, utilizada por alguém que tenho em grande consideração...) para serem notados. O princípio é sempre o mesmo: a ostensividade! Nos tempos de hoje, detestamos o cinzentismo e procuramos naturalmente, o foclore, a cor, a singularidade. E não queremos só pinocar por aí como coelhos!Não senhoras, que nos ofendem! Até, e pelo pouco que conheço da minha geração, falamos mais do que fazemos e na maioria das vezes fazêmo-lo mal! As mulheres batem-nos aos pontos, têm muito mais experiência no campo das relações sociais e ainda essa malfadada intuição feminina!
O maior trunfo das mulheres é, sem sombra de dúvida, serem como são: amigas distantes, mas presentes... Vistosas mas que sabem olhar ao essencial e, (admirem-se) por vezes até saber de coisas bizarras como o preço dos sortidos de bolos no Lidl ou da mais recente promoção do Feira Nova. Sabem também de outros segredos vedados à nossa espécie tais como "As calças de bombazine passam-se do avesso, João", ou referindo-se ao nosso último amor "Não vês que ela não gosta de ti?", assim como o que é Aspergic, Benuron, Brufene e toda uma parafernália de anti-inflamantes... ou que os homens também podem tomar Trifene 200 ... (Notícia choque!)
Ainda assim, tu jovem e insone macho se não encontrate o teu verdadeiro amor, podes sempre tentar aquela que é a verdadeira deixa machista "Ouve Maria, e se tu e eu nos encontrássemos para tomar um café ou ..."
Segunda-feira, Dezembro 15, 2003
Acidentes
E porque eu tinha escrito um texto interresantíssimo hoje, mas aconteceu uma calamidade (tenho que me lembrar de falar com o Catarino a propósito), ofereço-vos uma pérola de um blog notável o "Gato Fedorento":
"ESTA TERCEIRA IDADE ESTÁ PERDIDA: Há duas coisas que nunca, mas nunca, se devem subvalorizar nos idosos: a sua obsessão com os beijinhos, e a capacidade que têm de se alongar fastidiosamente em relatos banais. Recorrem, para isso, a ancestrais técnicas de aborrecimento, tais como o flashback irrelevante (ex: “eu tinha acabado de..., quando”), a repetição, a tautologia, a vacuidade (ex: “de maneiras que é isto”), o pleonasmo, o excesso de informação irrelevante (ex: “vi com estes que a terra há-de comer”), etc. Por isso, um funcional diálogo como este...
- Boa tarde. Perdeu uma chave? É que eu encontrei uma no hall do prédio.
- É minha, é. Muito obrigado.
- De nada. Bom dia.
- Bom dia.
... transforma-se nisto (apenas a informação relevante encontra-se sublinhada):
- Boa tarde. Passou bem?
- Bem, obrigado.
- Como está o pequeno? Ai, estás tão grande, meu Deus. Dá cá um beijinho! Ai, os olhos são da mãe, não são? Já o nariz é seu. Ah, já me esquecia! Realmente, esta minha cabeça... Por acaso, não perdeu uma chave?
- Perdi. Encontrou-a?
- Sim. Hoje de manhã, vim despejar o lixo, porque, ontem, jantei mais tarde do que o costume, às 6 e meia da tarde, e depois já fazia muito frio, e eu não posso apanhar frio, senão lá me voltam as frieiras, e o que é que eu vejo no chão do hall do prédio? Uma chave. Eu até disse para o vizinho do 3º esquerdo, aquele que tem o cão que está sempre a fazer cocó no jardim e fica aquilo ali a empestar a entrada do condomínio, “Ó Sr. Francisco, esta chave é sua?” “Não”, respondeu-me ele. De maneiras, que aqui está a chave.
- Obrigado. Boa tarde.
- Pois. Eu vim despejar o lixo, de manhã, e ela estava ali no chão, ao lado do vaso com a flor que já morreu há duas semanas e a porteira ainda não se deu ao trabalho de a tirar dali, é o costume. Mas como não era do Sr. Francisco pensei que talvez fosse sua.
- Fez bem. Muito obrigado.
- Foi uma sorte eu tê-la encontrado. Se não tivesse vindo, hoje de manhã, despejar o lixo, por ontem ter jantado muito tarde, não a teria visto.
- Estou com um bocado de pressa. Boa tarde.
- Boa tarde. Onde é que tu vais, pequeno? Dá cá um beijinho!" posted by Gato 1:06 PM
Sábado, Dezembro 13, 2003
Sendo otário
Mandei-lhe ontem uma mensagem e não me respondeu, ainda que o não esperasse que o fizesse... Porque razão nós, homens, somos tão estúpidos?
Vazio
A horas tardias, e não só, compreendo que existe permanentemente algo que insiste em assombrar o espírito festivo desta quadra. Na vida que levamos existem momentos a que gostaríamos de fazer forward e não mais voltar. Tenho momentos assim,de desorientação, num estado apalermadamente catatónico, de exposição ao Vazio. E, face a tal desespero, ao ridículo e assombroso da coisa, estou sozinho. Estamos todos.
Desde cedo que tive dificuldade, também, em me relacionar com os outros, com o Outro. Talvez tenha sido por essa razão que estudei, ou fingi estudar, as artes da sapiência, a filosofia da dúvida ou o metodismo lógico. Para confirmar o que suspeitava, que existe em mim algo que é necessáriamente distinto dos outros, forçosamente distante.
Gilles Deleuze, em - O Anti - Édipo - disserta a respeito da necessidade de "criar" enquanto actividade que expurga, que exorcisa os nossos demónios. No que se refere a demónios, tenho um gang organizado e, o que é engraçado é que, sou também o seu comandante - chefe.
São momentos assim, de confissão voluntária que nos possibilitam o reencontro com o equilíbrio pré-natal (a existir).
Sendo nós, o produto da nossa vontade consciente assim como fruto dos acasos e vicissitudes com que nos cruzamos, importa também repensar o papel do acaso na nossa singular e irrepetível existência. E se ... em vez de apanhar esta carruagem de metro, apanhar a próxima, reencontrarei a razão, o propósito de existir?
É triste ter-se saudades de alguém q não nos quer. É ridículo desesperar pelo impossível e ao mesmo tempo estarmos certos de que, é essa mesma pessoa que nos faria soltar as grilhetas com que a nos mesmos nos aprisionámos em tempos e nos faria felizes.
Sexta-feira, Dezembro 12, 2003
Compras
Hoje foi um dia um tanto ou quanto inócuo em que à semelhança de Catarino, também eu, deambulei um pouco pela catedral de consumo que é o Centro Comercial Colombo em busca de ofertas natalícias a preços "acessíveis" (odeio esta palavra, mas é muito tarde para me lembrar de outra). Engraçado como as senhoras nos olham de modo diferente quando levamos um cão enorme de peluche na mão, um desodorizante na outra e um pack de 10 hamburgueres em cima da cabeça desse mesmo cão - o peluche tem um sex-appeal muito próprio, tento acreditar... Existem dias assim.